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terça-feira, 29 de março de 2011

sobre a possibilidade de existir um mundo sem drogas:

Dizia a Professora, na aula sobre este tema, que é impossível que lhe fiquemos indiferentes. Poderá, até, haver alguns assuntos sobre os quais não temos opinião mas que, em relação às drogas, todos temos alguma coisa a dizer.
E é por isso que sei que este meu post vai munido de subjectividade, ciência zero, e (concerteza)cheio de romantismo. Isto porque tendo, sempre, a pensar nas drogas como consequência de vidas infelizes, como ausência de capacidade de antecipar caminhos melhores, meios mais eficazes e fins menos dolorosos.

E talvez seja por isso que me é tão difícil imaginar um mundo sem drogas: porque o vejo como cada vez mais infeliz, mais desesperançado, mais acomodado ao fácil e rápido, menos lutador. Como se hoje em dia todos tivessemos mudado o chip para qualquer coisa como "nasceste para ser feliz, diz não ao sofrimento, não há necessidade de passares por essas coisas"... e este chip toca desenfreada e constantemente não só perante dificuldades sérias como, também, perante a mínima contrariedade.

Quase que parece que todos, por uma razão ou outra, procuramos o motivo para nos escondermos, anestesiarmos, bloquearmos. Um desejo de sermos invisíveis ou mais visíveis, um desejo de calar ou de gritar mais alto... todos parecem correr sem saber para onde, procurar sem encontrar, querer sem lutar.

Assim, e perante um mundo em que nem nós acreditamos, como podemos pensar em retirar o pouco que vai conferindo, a uns e a outros, uma ténue falsa sensação de controlo e de alívio?

Podemos tentar, mas sem outras intervenções de fundo de nada nos valerá.

Seria preciso um "educar para a infantilidade", aquela proeza que só as crianças conseguem que é a de aproveitar cada minuto dos seus dias ao máximo, ver e esperar o que é bom, esforçar-se por agradar. Penso que só essa capacidade (que é difícil, mas atingivel) permitiria que as drogas se tornassem em algo completamente ridículo e dispensável, quase dessem vontade de rir, e os remédios (que tão úteis nos são) não constituissem perigo de adição para ninguém.

quinta-feira, 3 de março de 2011

fazer o que está certo

sempre, sem vacilar, é uma estafadeira e não estou assim tão certa que compense.
Quer dizer, não que agora passe a ser uma bad girl mas é que, ás vezes, o espaço para a loucura, para o irracional, para o espontâneo é mais pequeno que uma agulha.
E não é só com essas linhas que me quero coser.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

fragilidade


Parece que nem sempre conseguimos fechar as mãos, apertar com força, e deixar ficar sem partir.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Uma vez na faculdade... #5

Matthew Killinsgworth, um estudante de doutoramento em psicologia de Harvard e o seu mentor Daniel T. Gilbert, num artigo publicado na revista Science deste mês de Novembro, intitulado "A Wandering Mind is na Unhappy Mind", concluem que o preço a pagar pela capacidade humana única de estar a pensar noutras coisas para além do que está a acontecer no momento, é tão só o preço da infelicidade. Dizem eles: "a human mind is a wandering mind, and a wandering mind is an unhappy mind". Seremos então infelizes por passarmos pelo menos 46,9% das horas em que estamos despertos, a pensar noutra coisa para além daquilo em que estamos a fazer? A pensar naquilo que já passou, que teríamos mudado ou que teríamos mantido tal e qual como aconteceu, a pensar naquilo que gostávamos que acontecesse ou que tememos que venha a acontecer?

Parece que este nosso modo de funcionamento por defeito não nos traz muito benefício: os investigadores contactaram 2500 voluntários, em diversos intervalos, para responderem quão felizes estavam com a actividade que estavam a desempenhar no momento, entre 22 actividades, como comer, passear, fazer compras ou ver televisão. Em média, responderam que os seus pensamentos divagavam em quase metade do tempo, e não menos de 30% mesmo quando estavam envolvidos noutra actividade, à excepção da actividade sexual, do exercício físico ou da conversa. Os momentos mais sombrios ocorriam quando as pessoas estavam a trabalhar, a ver televisão ou a usar o computador em casa. Parece então que o presente não interessa muito a ninguém, excepto quando há exercício físico envolvido, interacção humana ou ... ambos ...

O que é interessante, é que este hábito de divagação em que pelos vistos somos todos de algum modo viciados, é um excelente preditor do nosso grau de felicidade, não só por meramente acontecer, mas também em virtude do modo como acontece. Isto porque para além de deixarmos os nossos pensamentos escapar ao nosso controlo, interessa também saber para onde os deixamos escapar. Com efeito, o sítio onde estão os nossos pensamentos na maior parte das vezes, indica em 10,8% se nos sentimos felizes ou infelizes. E é importante sublinhar que estas divagações, de acordo com o estudo, são a causa e não a consequência do nosso mal-estar.

Ora, o tipo de divagação de que fala Killingsworth partilha muitas semelhanças com o tipo de pensamento típico dos indivíduos com depressão. Os resultados de uma experiência realizada por Smallwood e outros (2007), indicam que o grau de divagação (mind-wandering) em que um indivíduo se envolve, constitui um importante marcador para a identificação de um tipo de pensamento depressivo e sugere uma série de implicações para a terapia da depressão. Numerosos estudos correlacionais, longitudinais e experimentais demonstraram que o auto-foco ruminativo prediz, aumenta ou mantém o humor negativo em pessoas deprimidas e que a distracção, em contrapartida reduz o humor deprimido. Ou seja, a técnica de paragem de pensamento pode ajudar estas pessoas a alterarem o foco de atenção do sítio onde se encontra para lugares mais felizes... E que tentar não pensar em alguma coisa em que nunca se pensou antes (um urso polar) é muito diferente de aprender a desligar um pensamento disfuncional que ocorre vezes sem conta.

Parece que a conclusão a retirar daqui é que só a atenção devidamente focada pode produzir bem-estar e que afastarmo-nos do que nos preocupa é que traz ganhos em termos de saúde mental.

Respondi assim:

"O que me aconteceu ao ler este post foi que os meus pensamentos voaram (divagaram!) imediatamente para a minha própria experiência.

E pensei, claro está, se isto de me perder tantas vezes nos meus pensamentos poderia estar, realmente, a fazer de mim uma pessoa menos feliz.

Claro está que ninguém gosta de admitir essa ideia, mas não é isso (ou não é só isso) que me faz pensar que não será bem assim como estes autores afirmam. Consigo conceber que haja uma série de actividades da nossa vida que não serão tão bem aproveitadas quando a cabeça se passeia por outro sítio e daí advém, necessariamente, menos prazer imediato e, a longo prazo quem sabe, o arrependimento pelo que passou e podia ter sido aproveitado e não foi. Neste caso, será necessário que a pessoa consiga aprender a desligar e encontrar, em si, estratégias que lhe permitam ir saboreando cada momento e tirando dele o maior dos proveitos. E acredito, verdadeiramente, que todos temos em nós a capacidade (mais ou menos bloqueada) de seleccionar aquilo que nos será mais relevante e em maior escala contribui para a nossa felicidade e desenvolvimento.

Porém, a felicidade passa também pela aceitação de que há coisas, experiências e momentos da nossa vida que nos serão penosos, que nos custarão a suportar e carregar. E, aí, não será uma bela arma de defesa a nossa capacidade (tão humana) de nos evadirmos e, sem pestanejar nem nada indiciar, viajarmos para longe, onde tudo é melhor e mais suportável... Posso estar enganada, mas não é isto que vamos pedindo aos nossos pacientes com algumas "técnicas" (ah, que nome este) que vamos aplicando com quem nos procura? A capacidade de imaginar, sair dali, se colocar em sítios que não aqueles e ver estímulos que não os que temem. E aquelas pessoas que só vão tolerando o único trabalho que conseguiram arranjar para dar de comer aos filhos, exactamente por se conseguirem abstrair da sua rotina enfadonha e ir passeando pelos jardins do seu pensamento?

E a confusão que me faz a afirmãção de que "o presente não interessa muito a ninguém"?... afinal, o que é o presente? É o segundo em que estamos? Ou é a actividade em que nos envolvemos? Ou é contado por dia, cada 24h é o presente... é tão relativo. Não consigo mesmo pensar, na graça do momento presente sem o comparar com momentos passados ou lhe dar valor no futuro. O presente não interessa a ninguém, vai interessando a todos. Porque é dele que depende a qualidade do que vamos designar como passado, a partir dele que avaliamos o futuro.
Então e se a divagação do momento presente for relacionada com o modo como melhorar o futuro? Isso não conferirá uma certa esperança e entusiasmo que nos permite, mais tarde, afirmar maior felicidade?
E se as pessoas que foram respondendo a estas perguntas estivessem, também elas, com a cabeça noutro sítio?"

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

sobre a (in)tolerância

Estou profundamente convencida que as pessoas menos tolerantes, menos flexíveis e até racistas, são aquelas que sabem muito pouco do mundo.
Aquelas que nunca sairam do seu canto, que nunca estiveram lado a lado com aqueles que acham tão diferentes e, por isso, nunca conseguiram comprovar que, afinal, são tão iguais.
A ignorância em relação ao ser humano é, para mim, a maior motivadora de discórdia, incompreensão, busca de algo que se pensa ser nosso mas não é de ninguém. Aliás, é de todos. Este mundo, estas coisas, estes bens, estas paisagens, estas terras.
Ao viajar apercebemo-nos de como a origem é a mesma, de como as emoções mais básicas são iguais e, espantamo-nos, até se expressam da mesma maneira.

No dia em que a pessoa mais intolerante do mundo estiver num país onde não percebe e não é percebido e cruzar os seus olhos com os de alguém cheio de medo, de fome, de tristeza profunda sem que seja preciso trocar uma palavra, essa pessoa vai perceber como todos os outros são partes de nós, como somos tão responsáveis uns pelos outros desde que fomos metidos todos na mesma Terra.

E se não tiver oportunidade de sair de casa, do bairro, da cidade ou do país, vá ligando a televisão e perca, aliás, ganhe tempo a ver documentários, a sair dessa ignorância tão confortável e permita-se ver como o mundo está cheio de gente que acorda, trabalha, cozinha, sai para se divertir, tem filhos, fica doente, vê morrer, ri alto, se apaixona, ganha e perde, anseia, espera, sonha.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

uma vez na faculdade... #4

... debati-me, assim, com uma colega no forum de discussão:



"A terapia serve para mudar algo", dizes tu. Não sei se concordo, digo eu.
A terapia servirá só para mudar algo? Ou poderá ser também para aprendermos a aceitar, com serenidade, todas as outras coisas que não podemos mudar?

"as pessoas conseguem mudar? A personalidade pode ser mudada? Posso passar a agir e a pensar de maneira diferente mesmo depois de tantos anos a pensar desta maneira?"
As pessoas conseguem mudar sim. Conseguem quando querem mas, acima de tudo, quando compreendem a necessidade e mais-valia dessa mudança. Porque ninguém muda para pior. Porque, bem ou mal, o modo com funciona tem vindo a servir propósitos bem definidos que permitem o avançar pelos dias. Assim, somente percebendo aquilo que pode ganhar ao abrir mão daquele modo de funcionar que lhes é tão querido, está garantido o clima que potenciará uma certa inquietação interior e o início de um pesar prós e contras. Uma inquietação entre o ir e ficar, entre o permanecer ou se desenvolver.

Se a personalidade muda? Não sei, para isso tinha de saber o que é a personalidade. Em última instância, faz de nós parvos (no mínimo) a ausência de abertura para a mudança, mas não deixamos de ser os mesmos. E ainda bem que assim é, porque nenhum de nós (colegas psicólogos) deseja que o nosso paciente, no fim, nem se reconheça. O truque está em fornecer as condições necessárias para que sejam integradas, uma a uma, as novas características, as novas crenças, os novos pensamentos e a coragem de aprender a viver diferente.

domingo, 21 de novembro de 2010

sobre ser mãe

É certinho como depois de hoje ser amanhã, que depois dos parabéns pelo casamento vem a pergunta: "e bebés, para quando?"

E depois vem a necessidade de respondermos.

Mas...calma lá... essa não é uma pergunta íntima demais?? É que se calhar, como os bebés se podem ver e tocar acabam por confundi-los com outras coisas e objectos. É como se perguntassem "Então e quando é que estão a pensar comprar um carro?", "Então e para onde é que gostavas de ir trabalhar?", "E quando é que gostavas de ir dar a tal volta ao mundo?"...

Acontece que decidir mudar o nosso papel para sempre, subirmos um lugar na hierarquia, mudarmos o nosso sentido e dever de responsabilidade, decidir trazer uma vida ao mundo, fruto do nosso amor e da nossa entrega, cuja boa formação e educação dependerá de nós e cujo bom crescimento e desenvolvimento depende da nossa estabilidade a todos os níveis, não é uma coisa banal, indiferente e superficial como as outras.
Ninguém pergunta ao outro "e perder a virgindade, é para quando?", "e passar a ires confessar-te quando é?" ou outras coisas que tais, em que sentimos a janela da nossa intimidade escancarada.

Mas depois nós, jovens e indefesos casais, a achar que temos alguma coisa a provar ao mundo, como a nossa capacidade de sustentar e manter uma casa, e ainda mais de sustentar e manter a nossa relação, vemo-nos a responder.
Como se uma coisa dessa dimensão devesse ser falada assim, com prazos, datas, limites e períodos de carência de seguros de saúde. Claro que temos um ideal de timmings para a nossa vida. Claro que nos sabe bem os dias que dormimos até à uma da tarde, mas dar um prazo para essa vida é tão ridiculo como marcar uma data para encontrarmos o amor.

E depois parece que se os bebes vierem antes desse prazo, por algum desígnio do destino, não serão tão amados como os outros, feitos ao dia e à hora marcada. Pelo contrário. Serão muito amados e muito benvindos como qualquer boa surpresa que nos fazem quando menos esperamos.
Mas, pior, é quando o prazo se alarga, e eles teimam em não aparecer. E depois desata a crescer, dentro de cada um, um sentido de impotência e de incapacidade. Porque toda a sociedade espera a sequência lógica namoro-casamento-filhos, e se eles não aparecem então se calhar não seremos assim tão bons e esta coisa maravilhosa que somos nós enquanto casal começa a ser posta em causa e a deixar-se fragilizar por comentários, perguntas e olhares de quem não tem a mínima noção de que as coisas íntimas são para ficar na intimidade.

Por isso é assim, eu e o meu D. estamos muito felizes e queremos continuar a crescer como casal na nossa intimidade, no conhecimento um do outro e na capacidade de saber estar sozinhos. Ainda nem faz três meses que casamos por isso parece um bocado desesperado todas as perguntas e, ainda mais, ridiculo as apostas à nossa volta. Seremos pais quando tivermos de ser e SE tivermos de ser. Venha quando vier, qualquer um dos nossos filhos terá a certeza de que nasce sobre uma rocha muito forte, uma relação construida de uma forma muito livre e muito sólida que os vai permitir voar e ser eles próprios, sabendo sempre onde voltar.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

quando as lágrimas caem (sim, porque caem)


Porque é preciso força para admitirmos que algo nos dói, força para enfrentar essa dor, porque é preciso coragem para procurarmos o que significa essa dor, porque é preciso audácia para procurar respostas, porque é preciso coerência para não deixarmos de ser nós próprios e não nos perdermos na dor.
Porque, às vezes, o equilíbrio entre não nos permitirmos sofrer e o mergulharmos no sofrimento é tão difícil de conseguir.

E eu sou parva. Porque deixo-me estar tantas vezes quieta dentro de uma carapaça (quase) impenetrável, pensando que devo ser o porto de abrigo de todos, a rocha de alguém. Convencida que vim ao mundo para ajudar todas as almas que se cruzam no meu caminho e mostram precisar de mim.
E depois esqueço-me de ir curando as minhas feridas, acho que pode ficar para depois até ao dia em que aqueles que melhor me conhecem e mais me amam, me olham nos olhos, me tocam no ombro e contam até 3 que é o tempo que demoro a revelar o que vai em mim e deixar que, finalmente, as lágrimas me caiam.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

uma vez na faculdade... #3

foi assim, no mesmo forum, sobre as questões culturais:

Foi muito interessante para mim, enquanto estudiosa de pessoas, ter feito as minhas viagens pela Ásia. Foram muitas as vezes em que me deparei com o pensamento de que seria desempregada se fosse trabalhar para países como o Laos, o Camboja, a Indonésia... isto porque lá, nas inúmeras conversas entre um inglês esquisito e comunicação por gestos, me era dito que pouco ou nada os atormentava para além de se, nessa noite, teriam o jantar para dar aos seus filhos. E isto fez-me compreender o papel que a cultura, em geral, e a sociedade, em particular, têm na patologia das suas gentes. E enquanto poderei reconsiderar esta minha afirmação perante perturbações de causas mais orgânicas, no que respeita à ansiedade e questões fóbicas poucas duvidas me restam. Cada um de nós, desde que nasce, é constantemente bombardeado com um conjunto enorme de expectativas acerca do nosso desempenho, do nosso papel, das nossas relações e reacções. Cada um de nós nasce rodeado de pessoas com certas características, hábitos instaurados, animais familiares... não será expectável que, com mais ou menos intensidade, estranhemos o que não nos é habitual? Pois, é. E enquanto psicólogos seria um atentado à integridade daquela pessoa se não a vissemos como um todo, em que se inclui a sua herança cultural. Porque seria perder muito tempo diagnosticar uma criança do Camboja que se mostrasse receosa perante um relógio que diz as horas em voz alta, enquanto seria preocupante se essa mesma criança tivesse uma reacção exagerada sempre que visse campos de arroz.

Mas nestas questões que envolvem a cultura, a definição do que é normal, ou pelo menos normativo, é um pau de dois bicos. Tanto parece inadaptado aquele que não vai ao encontro do que toda a sua comunidade espera de si (como a mãe que negligencia os seus filhos, o aluno, artista ou atleta que não buscam a perfeiçãop) como também aqueles que acabam por interiorizar de tal forma essas regras e expectativas que não conseguem funcionar de uma forma menos rigida e intrasigente, resultando daí uma enorme ansiedade inerente à necessidade de corresponder aquele que pensa ser o seu papel. O trabalho ao nível das crenças deverá ser feito no sentido de promover maior autonomia do pensamento e auto-conhecimento, auto-estima e descatastrofização: a importância dos significados que damos às coisas e como isso pode ter influência no modo como actuamos e sentimos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

you and you and you


Pois é, o Mundo é enorme. E eu tenho a sorte de poder dizer que dedico esta frase a mais do que uma pessoa que conheço.
Venho, diariamente, a descobrir mais e melhores coisas em todos aqueles que amo e que sinto que me querem.
Estar rodeada de pessoas especiais faz com que tenha vontade de ser ainda maior, ainda melhor, mais esforçada e dedicada. Sempre defendi que as relações, todas e de qualquer natureza, precisam de ser conquistadas diariamente, que o pior que pode acontecer ao que existe entre duas pessoas é darem-se por certas, por conquistadas. Tudo durará enquanto durar a luta, a vontade de conquistar mais um bocadinho do outro e de darmos mais um tanto de nós. Que pior do que estagnarmos? Pensarmos que demos tudo ou que nada mais, de novo, há a receber?
Se, enquanto Homens, temos a capacidade de eternamente nos renovarmos, façamos isso mesmo. Em nós, nos outros e, sobretudo, entre nós e os outros.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

uma vez na faculdade...#2

No forum de uma cadeira, acerca do suicidio e se este será o maior desafio dos psicólogos, disse assim:

Não sei se a questão do suicídio será a situação mais desafiante que o clínico encontra ou aquela que lhe provoca mais medo. É como se tudo aquilo que não vemos ou não sabemos se torne muito fácil de suportar, enquanto só a ideia de passarmos a ser cúmplices de uma intenção como esta nos torne, de repente, tão fracos e impotentes ao mesmo tempo que tão responsáveis. Como se a nossa função, como clínicos, fosse entregar (como que por magia) de mão beijada uma razão válida para que a pessoa não acabe com a sua vida.

Não posso deixar de dizer que achei uma certa piada (relativa, claro) ao ser referido, na questão, que o suícídio é um acto potencialmente irreversível. Bom, o acto em si, até agora, é mesmo irreversível. Para nós isto é tão claro, não é? "já viu que depois não há como voltar atrás?"... o que nos esquecemos, tantas e tantas vezes, é que o que parece irreversível para aquela pessoa, naquele momento, é a dor. Aquela que lhe aperta o peito e torna tão difícil respirar.

A minha questão será mais esta: até que ponto conseguimos ser suficientemente bons, neste tipo de problemática, a eliminar o sintoma? Até que ponto é que não vem ao de cima tudo o que são questões que se relacionam com a nossa necessidade de nos sentirmos competentes e, neste caso, o sucesso e competência, se transformam num aumento de dias de vida? É que a mim não me interessa que aqueles que se cruzam comigo não se matem só enquanto eu lhes dedico tempo. Eu queria, mesmo, que fosse suficientemente eficaz para que a pessoa consiga alargar o seu leque de soluções e, subitamente, a de se matar passe para último da lista.

Mas... se a dor for tão grande, e estar vivo não for, para aquela pessoa, viver mas sim arrastar-se pelos dias, que tipo de psicoterapeuta serei eu se, sem me consultar e resolver, sem me entender e encontrar o meu próprio sentido da vida, pedir que a pessoa na próxima semana esteja ali, à mesma hora e no mesmo local?

domingo, 7 de novembro de 2010

sobre a gaveta desarrumada

Não temos todos, em nossa casa, uma gaveta desarrumada? Aquela em que pomos tudo aquilo que não sabemos onde pôr. A nossa casa pode estar um brinco, tudo impecável e no sítio certo, mas essa gavetinha é a constante imutável. "ah, já não uso isto há tanto tempo, é tão giro, não posso deitar fora mas também não serve para nada... vou por na gaveta e depois logo se vê".

Isto para dizer uma coisa que aprendi no meu (fascinante) curso: todos nós temos, cá dentro, a nossa gaveta desarrumada. Aquela parte de nós para onde mandamos aquilo em que não queremos pensar agora, as coisas que não queremos chorar agora, os assuntos sobre os quais vamos decidir depois, as relações que vamos cultivar quando o coração se amolecer.
Há sempre uma parte de nós, por mais equilibrados que sejamos, que é confusa, insegura, que duvida, que não faz sentido. E não somos menos nem piores por causa disso. Pelo contrário, até acho que é por essa gaveta existir em nós, que nos damos tempo e disponibilidade mental para aquilo que, a cada momento, precisa da nossa atenção.

A única coisa é que, se não faz mal que a nossa gaveta de casa fique eternamente por arrumar, os assuntos da nossa cabeça não devem ficar muito tempo escondidos. Porque quanto mais abaixo os pusermos, mais difícil fica de os ir buscar, porque quando percebermos que é daquilo que tinhamos precisado já não sabemos onde o pusemos, ou quem eramos quando o largamos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Uma vez na faculdade...

...foi assim que respondi a um tema de debate sobre se a depressão será, ou não, uma doença:

"A questão, para mim, não é se a depressão será ou não uma doença. Mas, sim, se será uma doença voluntária, ou pelo menos, que tem a particularidade de ter a cura em nós ou não. O que não existe na maioria das outras doenças, em que temos de nos socorrer do exterior para voltarmos a nós.

A depressão será uma doença, talvez, mas não como as outras. Podemos lá cair sem nos apercebermos, porque a nossa personalidade tende a nos trair, porque tantas e tantas vezes somos nós os nossos piores amigos. Mas para sairmos, aí sim, temos de estar mais atentos do que nunca, sempre vigis, em busca daquilo que de melhor há em nós. Em nós, e nos outros. Aqueles que teimamos em não ver o quanto se preocupam connosco, aqueles que nos querem dar a mão (ou o braço todo).

E se há os chamadas maus doentes, que aqueles que sofrem desta doença não possuam em si a característica da teimosia. Será aquela que nenhum fármaco conseguirá fazer frente, aquela que não permitirá que se volte a ver o lado branco ou, pelo menos, o cinzento menos escuro."

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Mas não somos só olhos


Está certo que grande parte da nossa felicidade depende da capacidade que temos de olhar para a frente e anteciparmos o melhor ou, pelo menos, as melhoras. Claro está que ninguém consegue descobrir-se e desabrochar se ficar preso ao que foi, ao que era, ao que seria se. Nenhum barco anda se ficar amarrado ao cais. Deixarmo-nos das dores e complicações que um dia foram e darmo-nos a nós próprios o presente de não saber, mas querer ver. Sim, está certo que só desta forma nos podemos rir, sentir o frio na barriga, arregalar e surpreender com o que a vida (afinal) ainda tem para nós.

O problema é que não somos só olhos. E olhar para a frente com os olhos não significa que não haja outras partes do corpo que, de doridas, nos lembram o que passou, o que foi, o que sentimos. E ainda bem. Porque, no fundo, tudo isso fez com que chegassemos onde estamos. Tudo isso contribuiu para o modo como nos comportamos, como vivemos, como experienciamos, como sentimos e fazemos sentir. Que vazios e eternamente infantis seriamos se, a cada momento, procurassemos apagar aquilo que passou pela nossa pele, aquilo que nos encheu os olhos de lágrimas ou o que nos fez ficar de barriga para cima a olhar o tecto no escuro.

Só assim, de olhos para a frente mas de corpo todo a sentir o passado, é que podemos traçar o caminho. Porque ninguém consegue escolher a trajectória sabendo só para onde vai: tem de saber onde está. E como está. E como é que quer ir andando.

terça-feira, 16 de março de 2010

Desde que o homem é homem que há a consciência de que há algo para além do comportamento visível. E talvez tenha sido isso que foi empurrando a Psicologia no sentido de se desenvolver e construir como ciência, que é.
Mas parece que quando somos jovens só o que se vê é que existe. E tenho para mim que é essa insistência em só acreditar e seguir aquilo que podemos ver e tocar que faz com que, tantas vezes, nos contentemos com respostas vagas e, na maioria das vezes, nem as procuremos.
Assim, fui aprendendo a passear por entre os livros e as gentes, na busca do que não está escrito, nem dito, nem expressado. Procuro, hoje em dia, o que se anseia esconder, o que se procura disfarçar, o que se prefere calar. Porque são essas coisas que revelam essências, são essas coisas que vão mais fundo e nos desnudam.
E depois há aqueles dias em que penso nisto tudo mas faço a ponte com esta minha (quase) profissão. É que às vezes não calamos, escondemos ou disfarçamos deliberadamenre. Estou consciente de que quando os pacientes chegam à psicoterapia não têm uma perspectiva organizadora e adaptativa em relação ao seu problema porque foram, simplesmente assim, passando pelos anos exibindo uma forma de funcionar que se lhes revelava útil nas relações (com os outros, mas sobretudo consigo).
Mas, esquecem-se, adaptação tem a ver com a sobrevivência, desenvolvimento e bem-estar. Mas quando não somos genuinos não alcançamos o bem-estar. E sem bem-estar, ninguém sobrevive.
E com tudo isto, hoje compreendo que não há, nem tem de haver, pressa para ver os resultados em psicoterapia, que o funcionamento psicológico que mais nos faz ressoar são as emoções: os meus pacientes vão sentir-se tão mais compreendidos quanto mais as suas emoções forem, por mim, ressoadas, que o importante é mostrar que tudo é conversável e, assim, conquistar a sua confiança e assegurar que há condições para que dois eu´s se tornem num nós em que a minha emocionalidade pode e deve guiar-me nas minhas decisões terapêuticas.
Porque a terapia é feita a dois e porque o resultado final da terapia é o acumular de todas as micro-mudanças que vão acontecendo ao longo do processo, hoje sei que cada caso é um caso mas não é mais um caso. Faz a diferença, faz uma diferença.

terça-feira, 9 de março de 2010

Sem ter medo de ser criticado

Li, uma vez e nalgum lugar, que as críticas são boas sementes.
Adoro estas frases metafóricas que activam o meu cérebro que, às vezes, está a dormir a sesta.
Mas não é que tem o seu fundinho de razão?
Claro que isto só não é indigesto para aquelas pessoas que sabem bem quem são e para onde vão. Essas são as pessoas em que a crítica cai em boa terra e, qual semente, permite que haja ascensão. Que se processe, assimile e lime as arestas. Porque quando limamos as arestas ficamos mais polidos.
Ora, o elogio por mais agradável que seja (o ego adora festinhas), tem apenas a função de nos impelir a continuar. E, se não tivermos cuidado, daí não nasce nada de maior. Ao sermos elogiados tendemos a manter o padrão. Só que o desenvolvimento não é, de todo, manutenção mas, sim, mudança.

Por que não aprendemos a olhar para as críticas que nos fazem como uma escadaria que nos permite atingir o topo? O topo de nós mesmos. Porque só através dos outros é que vemos reflectido o que somos e, por isso, só com as suas críticas podemos subir os degraus. É como andar descalço no alcatrão num dia de Agosto: dói, irrita, sentimo-nos inseguros. Mas é pensar que quanto mais depressa sacudirmos tudo isso, mais rápido galgamos a escada.
Sem subir dois a dois!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Apetece-me falar de compromisso.

Quando acontece que o tema da conversa seja a maneira que arranjei de estar e levar a vida, fala-se de como consegui ir encontrando um espaço e tempo muito próprios para cada uma das (muitas) coisas a que me proponho. Esse espaço e esse tempo, frutos de um equilíbrio tantas vezes desequilibrado, são um dos segredos para que consiga, devagar mas dedicadamente, ir atingindo tudo aquilo a que me proponho. O outro segredo é o compromisso.
Dos meus pais e todos os discursos proferidos ao longo de tantos "jantares à mesa" ficou esta ideia de que só devo começar algo, seja o que for, se estiver decidida a comprometer-me. E comprometer significa dar tempo, dar de mim, esvaziar-me para poder aprender e assim crescer. Significa não desistir, ir até ao fim. Fazer o que é exigido, seja bom ou mau. Sacrificar, ceder, abdicar.
E é desse compromisso, quando vivido com a alma, que renascemos outra vez em cada uma das coisas que criamos, porque fomos até ao fim. Generatividade era o que se podia chamar a isto: a nossa capacidade infinita de deixar de nós naquilo que criamos e a que nos dedicamos. E depois disto não ficamos menores: o tempo não foi perdido e os sacrifícios não subtrairam nada. Pelo contrário, agora somos dois: nós mais aquilo que só se tornou possível porque nos demos.

Dou muitas vezes comigo a pensar que antes de dinheiro, paz e amor, talvez todos precisassemos de cultivar esta capacidade de nos comprometermos. Aprenderíamos a não desistir de lutar pelas relações que nos são queridas, o que traria o amor. Aprenderíamos a não desistir de ouvir e esforçar por compreender os outros e tirar os olhos do nosso umbigo, o que nos traria a paz. Não faríamos de uma maneira medíocre o nosso trabalho e daríamos o nosso melhor a cada minuto de escritório, o que nos traria mais reconhecimento, satisfação pessoal e, quem sabe, melhores empregos.


P.s.- Obrigada Fininha, pelo impulso. A resposta ficou nos comentários.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O pessimismo

De facto eu, como quase quase Psicóloga, já devia estar habituada à enorme diversidade das pessoas. Isso é o que nos torna tão interessantes e interessados, uns pelos outros. Fascinante é a maneira como cada um de nós encara a vida, produz justificações e teorias acerca do mundo.
Nunca fui uma pessoa pessimista. Reconheço alguma razão a quem se guia pela lógica de que mais vale ser pessimista e ter uma surpresa do que optimista e ter uma desilusão. Mas pronto, é lindo mas nunca o apliquei. Sempre acreditei que as coisas resultam e correm bem mas, a quota parte de realidade é estar muito consciente de que isso depende muito de mim. De cada um de nós.

Enfim, isto para dizer que ontem ainda me ri com um pessimismo a que não estou habituada. Hoje temos uma almoçarada de amigos do outro lado da ponte.
A: "Amanhã então sempre vens ao almoço?"
B: "Vou, em principio sim."
A: "Em principio?"
B: "Então, claro. E se a ponte cair?"

Bolas, era preciso muito azar e um temporal desfeito para, justamente hoje, a ponte cair.
Ah minha gente, mais pensamento positivo faxavor.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

E se todos conseguissemos?

Daqui surgem muitas das coisas que me fazem pensar na vida. Se a frase certa ouvida, ou lida, no momento certo tem um poder que não é possível descrever, essa mesma frase associada à força de uma imagem consegue, muitas vezes, arrebatar-nos, deixar-nos sem reacção e fazer-nos sentir muito pequeninos.

Às vezes isso acontece-me. Na maioria das vezes não são as imagens desse site mas sim as frases vindas das pessoas que mais admiro ou, e o inesperado é o sal da vida, vindas das pessoas de quem pouco ou nada espero e que, do alto da sua sabedoria que aos meus olhos, tantas vezes arrogantes, penso ser nenhuma, me desarmam e me fazem meter o rabo entre as pernas e lembrar a mim mesma o quanto ainda tenho para aprender, crescer, viver.


E hoje foi um belo dia para associar estas palavras a esta imagem. Porque, à semelhança desta frase, não há nada mais desorganizado e caótico do que a busca em nós mesmos por um Eu melhor a cada vez que enfrentamos um novo dia. Porque não há nada que pareça tão perdido no nevoeiro como aquela pessoa que sempre sonhamos ser, que sempre lutamos por alcançar e que, tantas vezes, dizemos ser e não somos. Porque não deve haver nada que se assemelhe mais com a calma desta imagem como a serenidade que poderemos atingir se, um dia, formos um "Eu ainda melhor".
Talvez não seja tão fundamentalista como o foi Rousseau e, para mim, a ideia do paraíso terrestre constitui, ainda, uma utopia, mas gosto muito de acreditar que está ao alcance de todos esta ideia de auto-educação e esforço de construção diária de seres humanos melhores, mais dignos, mais seres e mais humanos.